Um erro não justifica o outro – acidente na BR -153

Era 30 de abril. Um dia como outro qualquer. Já estava pronta para ir trabalhar quando recebi a ligação de uma amiga irmã, comunicando o falecimento de sua mãe. Não havia outra coisa a fazer, pegar estrada e chegar ao destino daquele dia, que era dar forças à pessoa amada e que necessitava. E assim peguei a estrada o que não imaginava é que seria um dos dias mais violentos da minha vida.

Após quase duas horas de viagem, próximo a ponte da pequena cidade do Rio dos Bois, na BR -153, tivemos que parar, uma fila se formava na estrada. Ainda não estava grande, o meu carro era um dos primeiros. Parei e fui ver que estava acontecendo, mas logo se percebia uma enorme nuvem negra de fumaça. Quem estava à frente explicava que havia ocorrido um acidente, ocasionado por um caminhoneiro e que havia vitimado um casal que estava em uma moto.

Fiquei triste com o ocorrido, mas estava indo a um enterro, e precisava estar lá o quanto antes, cheguei mais próximo ao local e vi que os moradores como forma de protesto, por ali ser um local que não proporcionava segurança aos moradores na travessia e por ter ocorrido outras mortes, protestavam. E como forma de protesto, levantaram uma barricada com troncos de árvores e pneus e atearam fogo para que ninguém transitasse, oferecendo riscos a eles próprios e aquém ousasse transpor a barreira.

Diziam que era uma manifestação de paz. No momento acreditei, mas foi puro engano. Aproximei daqueles que pareciam ser líderes do movimento e expliquei minha situação. Dois deles entenderam. Inclusive um a quem todos chamavam de vereador, mas nunca pelo nome. Pediram que trouxesse meu carro que iríamos passar e desta forma o fiz. Ao chegar próximo a barricada, parece que nem todos se entenderam e impediram que a nossa passagem.

Com toda esta movimentação, o meu carro era o primeiro da fila e os veículos que estava atrás percebendo a movimentação o seguiram e acabaram por fechá-lo, assim ficou sendo alvo fácil dos manifestantes, mas uma vez tentei negociar e novamente aconteceu como anteriormente. Então desisti.

Por ali ficamos por quase uma hora, quando os manifestantes vieram em nossa direção, pedindo que nos afastássemos para que a ambulância com o corpo da mulher passasse. Foi neste momento que tudo começou. Por um erro, nos enganamos e ao invés de dar ré, engatamos a primeira marcha, dando a impressão que iríamos furar o bloqueio. A multidão revoltada investiu contra nós e começaram a atacar o carro, e incitados por aquele que chamavam de vereador, esmurraram, chutaram e balançaram o veículo com ânsia de vira-lo e não satisfeitos quebraram o pára-brisas do carro, não sei dizer se com murros ou pedras, apenas sentia os cacos de vidros caindo em cima de nós.

Não satisfeitos, e ainda, incitados pelo tal ‘vereador’ nos ameaçavam de morte, dizendo que se um deles havia morrido e que morresse um de nós. O tal ‘vereador’ ainda disse ao meu pai, um senhor de 75 anos: ‘o senhor ta se achando o bom, desça daí que vamos lhe mostrar quem é o bom’.

Um dos líderes, o que havia tentando negociar conosco, logo no início, vendo o que estava acontecendo, mandou que parassem, abrissem passagem para que pudéssemos passar. E assim foi, o mal já estava feito.

Após passar pelo bloqueio, parei e fui logo falar com um policial que estava ali, próximo e que deixou tudo acontecer, sem nada fazer. E não me perguntem o nome dele, naquele estado, só queria minha segurança. Fui perguntar porque ele deixou acontecer aquilo, e ele apenas olho pra mim e disse: “quem mandou vocês furarem o bloqueio? Desta forma não podemos garantir a segurança de ninguém”. Naquele momento morri. Senti, que aqueles que eram pra garantir a minha segurança, a nossa segurança, a de todos, simplesmente não ligavam.

Não tentamos furar o bloqueio, foi um engano, quem diante de tamanha pressão, não erra? Mas um erro não justifica o outro. A falta de segurança em nossas estradas, de sinalização adequada, de fiscalização adequada, justifica sim a morte do casal, pois é resultado da omissão dos políticos do nosso Brasil.

Mas, a população daquela pequena cidade nos atacar, não se justifica. Não tínhamos culpa do ocorrido, assim como eles, esperamos melhorias no nosso sistema, viário, aeroviário, ferroviário, hidroviário, enfim esperamos melhorias em nosso Brasil, para que nossos entes queridos não paguem com a vida.

No dia 30 de abril senti medo, e ao mesmo tempo senti que estamos sós. Segui meu caminho, arrumei o carro, arquei com os prejuízos e fui levar minha solidariedade a minha amiga.

Mas quem irá solidarizar com o restante do Brasil? Acorda Brasil.

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