A menina e o contador de “causos”

Atendendo ao pedido da leitora Joelza postamos sua crônica. Aqui os espaço é aberto. Se tiver alguma. Mande a sua também.

Por  Joelza Oliveira

Estava ela com a idade de cinco anos, quando começou a entender os acontecimentos que envolviam a aura misteriosa do vilarejo onde fora morar, desde o seu primeiro dia de vida. Lá, nas noites em que a luz da lua permitia, ouvia de um certo morador misterioso, conhecido apenas por Sargento Venâncio, a narração de alguns episódios, que por conta de sua inocência, guardava como verdades quase absolutas. Enquanto ouvia os “causos” imaginava os cenários, aonde ora vinha à sua mente, lobisomens perseguindo caçadores, que também eram seus vizinhos; ora outros vizinhos que em outros “causos” eram os próprios lobisomens; ora vizinhas, que na sua imaginação poderiam ser algumas das famigeradas matintas pereiras locais, que segundo os moradores, circulavam todas as santas madrugadas no povoado

Mesmo sendo uma menina, não tinha paciência com bonecas, e seu brinquedo favorito, nada mais era que uma pequena varinha de pescar. Quando sumia sem explicação, seus pais já sabiam onde a garota poderia ser encontrada: ou às margens do rio Piriá, ou na casa da índia Maria Gaia, que mesmo sendo de idade avançada, era com quem passava horas conversando sobre lendas amazônicas, a maioria delas, sobre os próprios ancestrais da amiga, ou ainda comendo lapial assado, peixe muito apreciado pelos indígenas que moravam nas redondezas no povoado, ou ainda aprendendo a fazer tipiti. Mas, na maioria do tempo, ou quase sempre, a menina ficava no sítio do contador de estórias sargento Venâncio, que apesar de aparentar ter uns 60 anos, sua idade era apenas mais uma incógnita, sobre ele.

No pequeno povoado de nome Japiim, cercada por uma imensidão de matas e rios, circulavam vários comentários, dando conta que o misterioso Venâncio teria ficado perturbado do juízo, por causa de choques elétricos, motivados por uma desobediência na época que servia ao exército, na capital do Estado do Pará.

Lugar de muitas estórias, nem mesmo as que Sargento Venâncio contava, era mais comentadas que aquelas, sobre a vida do próprio contador de “causos”, um enigma para todos, pois da vida dele, pouco se sabia, já que ninguém tinha coragem de entrar no sítio para verificar a veracidade de suas estórias, que tinham como cenário sua própria cabana. A menina sabia de quase tudo, a respeito de Venâncio, pois era destemida suficiente para ter tido coragem de entrar lá, por diversas vezes. Numa dessas vezes, fora mordida por um dos seus doze ferozes cães. Isso acontecera no inicio da amizade, pois depois os cães também se tornaram amigos da pequena menina.

Entre as centenas de estórias contadas à menina, numa delas, Venâncio dizia que tinha uma filha juíza e um filho médico, que segundo ele, moravam na capital. Para a menina, ele era meio “aluado”, mas sobre algumas coisas, ela tinha certeza que ele falava a verdade. Uma delas, por exemplo, tratava-se da criação de cobras, mucuras e lagartos, que faziam parte do seu cardápio e que ela já havia presenciado por várias vezes, os répteis e marsupiais sendo assados.

Além da fértil imaginação de Venâncio, ele tinha uma estranha e inexplicável mania de erguer construções de madeira com paredes de barro, nos mais diversos sítios que ele possui na localidade. Foi graças a esta mania que a fama de louco havia se espalhado por todo o município de Viseu. Alguns desses “prédios” tinham dois andares, sem nenhuma escada ou qualquer outro elo entre os pavimentos. Só ele conseguia passar do primeiro para o segundo andar, com a ajuda de uma espécie de andaime que ele carregava consigo, sempre que saia para visitar as construções, onde ficava uma semana em uma, uma semana em outra…

A menina bem que tentava convencer as pessoas da vila, dizendo que Venâncio não era louco, e sim criativo, mas ninguém acreditava nisso, apenas ela mesma. Ela muito tentou ajudar nesse sentido, mas a ela não davam ouvidos, em função de sua pouca idade. Alguns diziam que a criança também não era bem certa, pois para eles, quem fosse certo das idéias não acreditaria no amalucado contador de “causos”. Os pais da corajosa criança já haviam desistido de pedir para que a filha mantivesse certa distância do amigo.

O mais curioso é que mesmo sem credibilidade, ele sempre estava cercado muita de gente, que ouviam suas peripécias, onde ele mesmo era o personagem principal e de onde sempre saía vencedor, fosse nas lutas contra lobisomem, mulas-sem-cabeça, ou nas brigas com sucuris gigantes dos imensos rios da região. E a menina, no alto dos seus de 8 anos, começou a registrar em um caderninho, tudo que ia ouvindo.

Quando completou 10 anos, a menina teve que ir morar em uma cidade relativamente distante, para continuar seus estudos. No dia da sua viagem, seu amigo não se encontrava na vila, tinha ido caçar, e certamente voltaria com um novo estoque de “causos”. Ou talvez nem mesmo tivesse ido, mas na cabana ele não estava, a menina já tinha se certificado. Poderia muito bem ter se afastado de todos, pensara ela, já era sabedora de que em algumas vezes, ele já tinha feito isso: enfurnava-se em um dos seus sítios, para maquinar em sua mente, novas narrativas. Ela, como se estivesse prevendo algo, chorou copiosamente; parece que adivinhara que não reencontraria mais, seu grande amigo, pois mesmo com as notícias que vez ou outra recebia, por vários anos após ter ido embora, por idas e vindas da vida, o reencontro jamais acontecera.  A última notícia que ela teve sobre ele, foi justamente uma que informava que Venâncio estava tratando de um ferimento grave em um dos seus membros inferiores.

Anos depois, justamente em um dia muito especial, da vida da menina, agora com vinte e poucos anos, e morando em outro estado, ficara sabendo que ele teria morrido em um hospital de Belém, por complicações vasculares, causadas por uma trombose, em função de picada de uma de suas cobras de estimação.

No dia do velório, em meio a comoção com a notícia da morte de sargento Venâncio, notícia essa que havia se espalhado de uma ponta a outra do enorme município, dois desconhecidos adentraram o velório, que estava ocorrendo na igrejinha da comunidade. Seriam eles: juíza Telma Venâncio, e o médico Jeová Venâncio, os filhos que ele dizia ter e que ninguém acreditava. Assim, a população entendera que o misterioso sargento Venâncio não era assim tão lúcido, embora a menina não o considerasse totalmente certo, nem totalmente louco; nem tão mentiroso, como todos o julgavam. O fato é que até hoje lá “praquelas” bandas, ele jamais caiu em esquecimento. Na verdade, ele, assim como a índia Maria Gaia, passou a fazer parte do imaginário popular da pequena vila Japiim, pertencente ao município de Viseu, localizado no nordeste do Pará.

Quanto à menina, que àquela altura não era mais tão menina assim, não foi possível se despedir de amigo, pois sua formatura seria naquele mesmo dia, em um estado vizinho ao seu estado de origem, mas em memória do contador de “causos”, no íntimo do seu coração, ela dedicou sua conquista, nada mais justo, afinal de contas, foi por causa das narrativas de sargento Venâncio, que ela havia pegado gosto por escrever.

 

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Um pensamento sobre “A menina e o contador de “causos”

  1. Bonito ver alguém transcrever sua infância de maneira tão singela. São recordações
    que permanecem no coração, e insuflam as saudades de momentos felizes.

    Abraços,

    Euler

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